Arquivo para agosto \25\UTC 2011

A limitação das ciências exatas ou a falta de limites das ciências humanas, ou simplesmente Karoline.

Um litro de óleo contamina um milhão de litros de água, de forma análoga mas inversa um mínimo de umidade pode tornar um produto químico fora de especificação.  A soma de 1 + 1=2, nas ciências exatas tudo tem uma resposta estabelecida, uma explicação inquestionável, e, retirando raríssimas exceções, definitiva e imutável, o que torna este ramo (que nem por isso deixa de ser muito importante e indispensável) limitado, finito.

Nas ciências humanas não conseguimos tantas certezas absolutas, se três pessoas diferentes presenciarem determinada situação, provavelmente cada uma terá uma interpretação própria e diferente. Existem diversas técnicas, trocentas teorias de relações humanas, relacionamento interpessoal, atitudes que devem se ter para se alcançar determinado objetivo, mas mesmo fazendo tudo que se manda ao pé da letra o objetivo não chega, e ninguém sabe explicar o porquê. Existem infinitas possibilidades, tornando a amplitude das ciências humanas imensurável.

Toda essa limitada explicação da minha visão das ciências foi com o objetivo de dar um exemplo de algo que não tem a menor lógica ou explicação, principalmente para o meu cérebro acostumado a simplicidade do resultado de uma equação, que é aquele e só aquele.

Quantas vezes na vida encontramos pessoas que gostamos de graça ou que simplesmente odiamos a primeira vista? Isso é curioso, mas essas pessoas que passam pela nossa vida estão com uma relação dependente da sua atitude, uma briga pode acabar a amizade ou uma boa ação pode fazer se mudar uma opinião sobre alguém, e, além disso, são muitas pessoas, deixa de ser tão interessante. Espetacular é a falta de explicação das pessoas que gostamos de forma incondicional, essas são muito poucas e eu poderia escrever um texto para cada uma delas, mas esse texto é de Karoline.

Quando Karoline nasceu eu já era um pré-adolescente, aquele nascimento não só fazia com que eu não fosse mais um filho único, mas me transformava numa espécie de guardião da minha irmãzinha tão pequena e desprotegida, além de existir agora outro ser que dividia minha realidade na plenitude.

Karoline foi crescendo e como bom guardião muitas vezes tive que ser duro, rígido, mas não por satisfação pessoal e sim para prepara – lá para a vida. Chegou a adolescência, os conflitos, as dúvidas, todos os transtornos normais passaram pela vida dela, e eu sempre estive lá, mas nem sempre para consolar, porque quem cai tem que aprender a levantar sozinho, quem sofre amadurece com o aprendizado, minha vigília era constante, mesmo que muitas vezes ela não tenha entendido minhas intenções.

Minha irmã se tornou uma mulher, inteligente, equilibrada e que está construindo sua vida, mas para mim continua sendo aquele pedaço de gente com o rosto redondo e a bochecha grande, e eu continuarei sempre sendo o guardião, porque pode-se usar processos químicos para purificar aquela água contaminada com o óleo, ou ainda pode-se retirar a umidade do produto químico e o tornar dentro do especificado, mas nada pode mudar meu amor por Karoline, não existe ação, desgosto, ou qualquer formula que altere este sentimento.

Não existe nada mais humano que o amor incondicional, ele pode ser de várias formas, não tem explicação lógica, e é absolutamente intenso e infinito.

Bahia, paixão que aproxima.

Na chegada da véspera do Dia dos Pais, resolvi contar aqui um dos muitos
fatos que me lembro da minha vida como um todo e que estão diretamente ligados
ao Bahia.

Minha relação com meu pai nunca foi boa, talvez porque eu fui um filho
acidental de um homem de 22 anos com uma menina de 16 e que ainda estudavam
tentando uma ascensão social na escola técnica. Ou quem sabe pela própria
imaturidade da idade e conceitos da época que não permitiam demonstrações de
afeto ou comportamentos, hoje tido como naturais de um pai presente, afetuoso e
responsável. Ou ainda tentando me endurecer para enfrentar as dificuldades do
local muito pobre e cheio de criminalidade que morávamos, e também pelas
dificuldades que com certeza um negro, pobre e nordestino encontraria (e
encontrei) na minha jornada.

O fato é que meu pai não demonstrava nenhum tipo de afeição por mim, e isso
para uma criança é muito mais dolorido.

Da minha infância, os poucos momentos felizes que lembro com meu pai foram em
jogos do Bahia, como fomos no maior público da história da fonte, Bahia x
Fluminense em 88 e eu pude ver com meus olhos, dos ombros do meu pai, o poder de
uma paixão. Ou, ainda em 88, quando meu pai estava saindo para trabalhar e o
Inter estava ganhando de 1 x 0 e ele me disse: “O Bahia vai virar, não se
preocupe”. E o Bahia virou, me deixando imaginando se ele era vidente.

Mas o fato que realmente me marcou, envolvendo eu, meu pai e o Bahia, foi em
1994, aquela final do campeonato baiano. Era angustiante ver o tempo passar e o
vicetória ganhando, pior ainda é que não pudemos ir para o estádio e ficamos
dando voltas ao redor do rádio, como um ritual inconsciente aguardando o gol do
Bahia, e ele veio da maneira mais espetacular possível, no final do jogo, sem
chance de reação. No momento do gol eu e meu pai nos abraçamos como nunca,
gritamos de alegria, choramos de felicidade e sussurrando ele falou “eu te amo”.
Fiquei atônito, não sabia se continuava feliz pelo Bahia, se ficava surpreso
pelo que escutei ou se ficava satisfeito por descobrir que tinha um pai que me
amava do seu jeito e só o Bahia pôde me mostrar isso, já nos meus 13 anos.

Toda essa história é porque, como já disse, o Dia dos Pais está chegando e
minha esposa me perguntou por que eu comprei a camisa retrô de Raudinei para
ele, já que ela achava que tinham outras mais bonitas ou mais atuais. Eu só pude
responder que Raudinei não me deu um gol, Raudinei não me deu um título,
Raudinei me deu uma das coisas mais valiosas da minha vida. A sensação de que eu
tinha um pai de verdade, e que ele me amava.