Arquivo de novembro \30\UTC 2011

De repente trinta…

Dia dezoito de Novembro de dois mil e onze.

23h55min: A expectativa é grande, a visão parece embaçada e sou tomado por uma névoa existente apenas na minha imaginação, aliás, na minha mente neste momento só existe a névoa. Lugar, pessoas, objetos, tornam – se completamente inexistentes.

23h56min: A névoa começa a dispersar, mas o que vejo me intriga. Não é como um filme, são flashes, momentos isolados de uma infância tão distante que eu acreditava não mais existir mesmo na minha mente. Vejo-me rodeado pelas professoras no jardim dois, depois jogando bola descalço na ladeira da casa de minha avó Bel, lanchando à tarde com meu tio Tico, uma vara de pão e tubaína. Sinto-me carregado pelo meu tio Pinho quando ia as aulas de natação, na minha mão percebo que está minha gude “dedeira”, com a qual ganhei muitas outras. O vento aparece e eu vejo a arraia subindo no lado esquerdo da casa de minha avó Nair, os caras do plano também estão “botando” e a guerra é iminente. O cheiro do suco das flores vermelhas machucadas na lata com água se mistura com o cheiro de hospital tão presente nesta época em que respirar dava trabalho. Os primeiros, primeiros, carretel de linha 24, kimono, beijo roubado, arma de tampa de garrafa onde o gatilho era um pregador de roupas. As sensações são tão reais que eu me senti vivendo os primeiros dez anos em um minuto.

23h57min: Medo, agora o temor das novidades me consomem, novas obrigações, pegar ônibus para ir a escola (traseirando para usar o dinheiro para comprar sorvete), paqueras, assaltos, perdendo colegas para as drogas, a dor do ombro machucado, ser chamado para seleção de futsal do CEFET, sexo, alivio. O medo só dura o tempo de se começar, uma vez fazendo percebe – se que não precisava nada daquilo.
O CEFET, alguns dos poucos a quem chamo de amigos entram na minha vida, a dedicação ao estudo, a sopa na Etiópia (Restaurante da ETFBA), o clube do frevão, o amor, a decepção, o trabalho e o inicio da faculdade, se na realidade tivesse passado tão rápido seria bem melhor, ou, pensando melhor, foi bom ter demorado mais dez anos, no final a década foi muito positiva.

23h58min: Correria, muita correria, dormir só no trajeto Salvador/Pólo ou Pólo/Salvador, UFBA/Trabalho/UNEB/Namorada/Trabalho/ Casa?, Quem dera pudesse ir em casa, era quase um visitante no meu quarto.
Decisões importantes, final de relacionamentos, inicio de relacionamentos, formatura, mais responsabilidade profissional, gerir, fazer escolhas difíceis, pedir demissão.
Portugal, parece que vivi lá por anos pela intensidade dos sentimentos, a amizade de Gil, Maia, Correia, Dona Graça, entre outros. A saudade de casa, das pessoas, a praia clara às 21h da noite, a obesidade, a depressão, o apoio, a humildade e a Petrobrás.

23h59min: Já não consigo pensar em mais nada, a iminência de “balzaquiar” e a conseqüência disso me deixam atordoado, cada segundo percorrido pelo relógio é uma agulha na minha pele, aflição, será que era isso? Acabará minha juventude? A tão alardeada geração y será considerada “madura” (velha)?
Aperto os olhos me preparando para o pior, que demora em passar um minuto, eu penso.

00h00min 19/11/2011: Os olhos continuam fechados, mas escuto ao longe um choro que vai aumentando de volume exponencialmente, sinto algo “futucando” minhas costas seguido da frase: – Letícia acordou. Ainda meio atordoado olho para o relógio, 00h30min, não sentia nada diferente, a plenitude profetizada por Balzac não se fazia presente, era o mesmo eu de ontem. Entendi então que eu era a soma dos vários Brunos que já fui, multiplicado pela experiência que absorvi das pessoas que conheci e elevado a quantidade de culturas, lugares e situações que presenciei.
Um cutucão forte agora: – Não está ouvindo Letícia chorar não é?
Bem, me deixa filosofar depois, agora tenho que cuidar da minha filha, e tentar possibilitar que ela chegue aos trinta, quarenta, cinqüenta, feliz e satisfeita. Superando-me em tudo.

O valor da amizade

Sempre que idealizo escrever sobre determinado tema, em virtude do meu parco conhecimento ou considerável ignorância, procuro me iterar do significado real das coisas relacionadas ao texto. O curioso é que o texto que agora transfiro para o “papel” tem como tema algo que quase todos acreditam saber o significado, ou ao menos possuem sua própria definição. Mas será que as pessoas realmente sabem o que é amizade? Vamos primeiro as definições oficiais:

  • “Amizade (do latim amicus; amigo, que possivelmente se derivou de amore; amar, ainda que se diga também que a palavra provém do grego) é uma relação afetiva, a princípio, sem características romântico-sexuais, entre duas pessoas. Em sentido amplo, é um relacionamento humano que envolve o conhecimento mútuo e a afeição, além de lealdade ao ponto do altruísmo. Neste aspecto, pode-se dizer que uma relação entre pais e filhos, entre irmãos, demais familiares, cônjuges ou namorados, pode ser também uma relação de amizade, embora não necessariamente. A amizade pode ter como origem, um instinto de sobrevivência da espécie, com a necessidade de proteger e ser protegido por outros seres. Alguns amigos se denominam “melhores amigos”. Os melhores amigos muitas vezes se conhecem mais que os próprios familiares e cônjuges, funcionando como um confidente. Para atingir esse grau de amizade, muita confiança e fidelidade são depositadas. Muitas vezes os interesses dos amigos são parecidos e demonstram um senso de cooperação. Mas também há pessoas que não necessariamente se interessam pelo mesmo tema, mas gostam de partilhar momentos juntos, pela companhia e amizade do outro, mesmo que a atividade não seja a de sua preferência”.
  • “Amizade – do Lat. *amicitate. s. f., afeição; amor; boas relações; laço cordial entre duas ou mais entidades; dedicação; benevolência”.

Lendo essas definições de amizade passa a se ter uma leve ideia de sua grandeza e importância, é um sentimento tão nobre e profundo que muitos passam toda a vida sem conhecê-lo, por mais que vários se iludam chamando a qualquer pessoa que tenha um mínimo de convívio de amigo, o que é um imperdoável insulto ao imaculado sentimento real.

As pessoas são diferentes, isso é um fato inconteste, mas muitos de nós cometemos o grave erro de esperar dos outros a mesma consideração e atitude que temos, o que na maioria dos casos resulta em decepção. O erro evidentemente é de quem idealiza, uma vez que a outra pessoa jamais fez promessas de agir conforme nossos valores e convicções, essa cobrança chega a ser injusta e um pouco imatura.

O grande problema neste caso está em minha natureza, essa mania de viver tudo em intensidade, de ser tão visceral em minhas relações, ações e pretensões. Fazem com que me torne um forte candidato a desilusões, neste caso sem nenhuma conotação sexual ou relacionado a mulheres, mas a algo muito maior, as pouquíssimas pessoas a quem chamo de amigo.

O ditado que diz que escolhemos os amigos, mas não escolhemos os parentes. Tem uma profundidade que muitos não percebem, a verdadeira amizade é superior a qualquer laço de sangue, claro que podemos ter amigos dentro da família, o que não é de conhecimento geral é que uma vez que uma pessoa se torna seu amigo automaticamente faz parte da sua família, e por opção não pelo acaso.

Meus amigos de verdade sabem o nível de estima que tenho por eles, nas definições acima me chamaram atenção a “lealdade ao ponto do altruísmo” e o “amor”, acho que amizade pode ser resumida com essas palavras, que por si só são de uma complexidade muito grande. Pude desfrutar do amor dos meus amigos nos momentos em que acreditei que não iria suportar tamanho sofrimento, que a vida não tinha sentido e a vontade era de me entregar, nesse momento meus amigos me carregaram até eu perceber que poderia andar sozinho novamente. E percebi a lealdade dos mesmos nas minhas vitórias, quando enxerguei em seus olhos a alegria por eu estar prosperando, pois minhas vitórias também eram vitórias deles, na amizade verdadeira não há espaço para inveja.

A fusão de amizade e família me impulsionaram a escrever sobre o assunto, três amigos despertam em mim no momento sentimentos completamente conflitantes, dor, companheirismo e decepção. A primeira infelizmente está na iminência de deixar nosso convívio, certamente irá para um local onde seres mais evoluídos que são mais próximos a seu nível a acolherão da maneira mais carinhosa possível, assim como ela fez por merecer, essa era uma “mãe”. O segundo está passando por um momento que todos, ou quase todos, na nossa faixa etária já passou. O fim de um relacionamento que partiu da parceira, é complicado observar no outro um sentimento tão conhecido como o sofrimento e não poder fazer nada de efetivo, gostaria de poder dividir esse peso, tomar para mim uma parte desta dor, ter o poder de apagar da mente dele o que tanto o machuca, mas minha impotência na situação é irritante, estar do seu lado é a minha obrigação e você sabe que eu sempre estarei aqui para te apoiar meu “irmão” por mais que quem irá te curar é o tempo. O terceiro talvez tenha caracterizado o erro na forma de conduzir minhas relações, a questão de esperar do outro o que eu faria, tenho plena convicção que ele não faz ideia do grau de gratidão, respeito e consideração que lhe eram dedicados. Não pensaria duas vezes em abdicar de posições profissionais em prol do crescimento dele, nem mediria esforços em ajuda-lo em qualquer questão pessoal, mesmo que me trouxesse prejuízo, é a questão da abnegação, do altruísmo e da lealdade. Mas infelizmente nossos conceitos de amizade são divergentes, e suas atitudes me levaram a uma grande decepção, num entanto que fique claro meu “irmão” ou “genro” como preferir, a idealização foi minha e consequentemente a culpa.

Isso foi só uma visão de amizade de um ser em inicio de aprendizado, não pode ser usado como parâmetro para ninguém, apenas norteia as minhas relações e atitudes, mesmo que alguns acreditem e afirmem aos quatro ventos que minhas ações não condizem com minhas palavras. Amizade para mim não tem um valor mensurável, se você encontrou um amigo de verdade durante sua vida, considere-se abençoado e bilionário.

 

As derrotas inevitáveis e a imortalidade dos inesquecíveis

Pode parecer extremamente arrogante, mas nunca escondi de ninguém que não possuo nenhum tipo de apreço pela derrota. Não chegar a um objetivo, não alcançar um resultado, ser superado por outro, em qualquer situação não me sinto nem um pouco confortável em perder.

Particularmente, na minha perspectiva, isso não é um defeito tão grave. Pois é algo que certamente só faz mal a mim, mas em determinados momentos pode até ser considerada uma virtude já que me impulsiona para frente em busca dos meus objetivos e do conseqüente crescimento que os acompanham.

Evidente que já na iminência de “Balzaquiar” já fui obrigado a superar vários reveses, gostando ou não fui submetido a situações que não tinha nenhum tipo de controle, independente do grau de superioridade e dedicação que possuísse jamais chegaria à vitória, encontrei adversários fortíssimos, contra os quais não tinha nenhuma chance na visão de todos, e cheguei a vencer algumas batalhas me levando a ilusão que ninguém é invencível, mas então chegou a idade, a maturidade e um adversário intransponível, a MORTE.

É impressionante o quanto a morte se torna mais presente na minha vida com o passar do tempo, parece aquelas pessoas chatas, pirracentas, que a cada período ficam falando, ganhei de você novamente, você é fraco e impotente contra mim, não adianta lutar nem espernear, o poder do barqueiro é supremo e incontestável.

Depois que meus avôs foram o premio para mais uma vitória deste maldito adversário, passei a me conformar com minha mediocridade nesta situação. Periodicamente perco amigos para ela, mais esporadicamente perco alguns parentes e a cada dia que passa tenho o conhecimento que se aproxima minha derrota derradeira, quando irei acompanha – lá mesmo contra minha vontade.

Calejado e já conformado com a situação, segui minha vida, mesmo acompanhado deste incomodo causado pela derrota recorrente para o adversário intransponível, isso pelo menos até 48 dias atrás, quando minha “mãe” em Sergipe, que é conhecida por todos como Baiana, sofreu um AVC seguido de aneurisma e que causou hidrocefalia.

Baiana é um ser iluminado, ao longo dos seus 63 anos só fez servir e ajudar a todos que podia. Criou com muito amor por 14 anos uma criança com uma doença degenerativa que foi deixada a sua porta e nunca foi tratada diferente de um filho legitimo. O próprio filho, resultado do seu casamento mal sucedido, sofre com distúrbios mentais e nunca foi minimamente maltratado em virtude de sua deficiência. Eu e meu amigo George, sem porto fixo em Aracaju, fomos acolhidos de uma forma que muitas famílias não fazem com os seus mais próximos.

Sempre alegre, ativa e pronta para servir, Baiana certamente é um dos seres humanos mais inspiradores que já conheci, um verdadeiro exemplo de simplicidade e doação, mesmo muito debilitada não aceita a derrota. Briga bravamente por cada respiração. Por isso resolvi sair da inércia, resolvi enfrentar minha antiga e temida adversária, os prêmios estavam me custando cada vez mais caro e minha natureza não admite o comodismo a que estava submetido. Foi então que um pensamento se iluminou em minha mente, existia uma coisa que a morte jamais poderia levar de mim, uma disputa que ela não poderia ganhar. As lembranças boas, os ensinamentos, os exemplos, os sentimentos de todos aqueles que ela um dia me levou, sempre permaneceu no meu interior e contribuiu em larga escala para o que me tornei hoje, na verdade eu nunca perdi, fui um vencedor só pela oportunidade de conviver com essas pessoas diferenciadas, evoluídas e cheias de conteúdo que de forma muito gentil me ajudaram a crescer.

Pessoas excepcionais são inesquecíveis, sinto orgulho de ter convivido com meu avô Nelson, com meu avô Manoel e com Baiana, que dentre outros me possibilitaram vencer meu adversário mais temido e implacável, pois agora não tenho mais medo, já tenho a consciência que cada prêmio reclamado pela morte me torna mais forte, vai ser mais alguém a andar sempre comigo, fazendo parte da minha essência, e me tornando um exercito iluminado, pelo menos até o dia que minha luz apagar.